quinta-feira, 27 de março de 2014

ESCOLA: MEUS UNIFORMES

Imagem: Uol cultural - Uol.com.br



Creche? Não precisei. Tinha mãe e avó à minha disposição para me cuidar, educar, mimar e infernizar a minha vida. Jardim de infância, nem pensar! Pois ninguém em casa era filho de Barão do Café e nem filho de um “Comendatore” da indústria. Levado “alle Suore” (às Freiras) para fazer o Pré-primário, a Madre não achou necessário, pois minha avó ensinara-me muito bem as primeiras letras. Que eu aproveitasse o tempo para falar melhor o Português...
E eu, por três horas, duas vezes por semana, passei o ano de 1954 na escolinha de D. Maria Vittoria, bem penteado e arrumado – ela exigia - aprendendo “apparlà Portoghese” (a falar Português).   
Pela avidez com que D. Maria tentava arrancar minhas orelhas, acho que eu não fui um bom aluno...
Então, na espera de ir para o Primário, o meu Jardim de Infância foi a rua. O uniforme: calções de algodão barato, na cor vermelha, azul, verde. Cores que não encardiam com facilidade e de fácil lavagem. E “ganetta” (camiseta) sem mangas. Nos pés, os mais privilegiados usavam alpargatas, os remediados, um par de “zoccoli” (tamancos), a maioria pés descalços. E o que se aprendia? Jogar futebol, jogar malha, bola-queima, pular carniça, empinar capuscetta, etc. E a dizer um montão de “parolacci” (palavrões)...
1955, eu todo uniformizado indo ao Grupo Escolar: Calça azul-marinho (calça curta para o verão, comprida para o inverno). Camisa branca de algodão, de manga curta ou comprida, de acordo com a estação. Malha de algodão, com zíper, em azul-marinho com o emblema da escola. Gravata azul-marinho que trazia listra branca em diagonal. Ia de uma (primeiro ano) a quatro (quarto ano). Meias brancas três quartos, cujo elástico apertava a panturrilha provocando coceiras. E sapatos pretos. Sapatos a preços módicos e funcionais em couro duro, com solado de pneu. Bons para a escola, chutar bola e chutar latas. Um coturno do Exército pareceria um sapato de cromo alemão se comparado a esses “confortáveis” calçados.
Quando no pátio, formávamos as filas por classes, serventes zelosas examinavam as condições dos nossos uniformes. Se adequados, tudo bem. Senão, após a aula, voltaríamos para casa com uma advertência às nossas mães pedindo que cuidassem melhor dos nossos uniformes... Palavras suaves que indiretamente chamavam as mães de porcas.
Na classe, a professora ia de carteira em carteira, examinar o nosso material e nossa higiene pessoal. Unhas compridas com “luto”, orelhas encardidas ou com cerume, rendia a maior bronca e humilhação. E claro, uma advertência à mãe do “porcalhão”...
Se o aluno descuidado fosse pobre e recebesse os materiais e uniforme doados pela Caixa Escolar, ele era massacrado. Sofria as maiores  humilhações.
O Curso de Admissão ao Ginásio foi feito conjuntamente com o 4º ano primário. Saia do Grupo almoçava e ia para Curso. Vivia morrendo de sono.
1959 - No Ginásio diurno, com exceção da calça curta, o uniforme era o mesmo do Primário. E podia-se usar em vez dos sapatos, tênis ou “Sete Vidas” azul-marinho da “Alpargatas”. No Ginásio noturno, ia-se com a roupa do trabalho. Usava-se apenas uma gravata com o emblema do ginásio.
Tanto de dia como de noite, na educação física, usava-se calção, camiseta, meia de cano curto e tênis. Não tinha essa de agasalhos.
Do ginásio ficaram “doces” lembranças: O Latim, exames orais, uma segunda-época... E uma suspensão por atitude indecorosa! Eu explico: Uma aluna chamada Amélia vivia “tirando uma” com a minha cara. Então eu comecei a cantar para ela (Bendito Monsueto!) “Amélia que era mulher de verdade, tirava o maiô e ficava à vontade”... A música pegou e todo o pessoal da nossa ala (6 classes) do noturno passou a infernizar a vida da Amélia.
 1963 - No Clássico ou Científico (fiz o Clássico) diurno usava-se o mesmo uniforme do ginásio. No noturno não havia mais a necessidade nem de usar gravata com o emblema da escola.
1966 - No Cursinho, uma beleza! Vista-se como quiser. E conspirava-se sobre tudo.
1967 - Na Faculdade, delícia. Só era proibido ir pelado! Conspirava-se ainda.
1971 – Pós Graduação. Uma “zona” deliciosa!
1972 - Depois da faculdade, do Pós, como é bom ser livre!...

Mas a Universidade da Vida não deixa barato. Obriga-nos a usar não um, mas todo o tipo de uniforme. E certas Faculdades dessa Universidade nos impõem o uso de máscaras...


 Por  Wilson  Natale

"MALUCOS-BELEZA" (ANOS 70)



O lado trágico da Paulicéia”

(crônica da Cidade nos Tempos de Sexo, Drogas & Rock’n Roll)

Toda a Crônica é desencadeada por alguma razão. As razões desta minha Crônica são três. Razões cristalizadas em velhas fotos.
Como a vaticinar o final dos tempos, surge nos céus um cometa brilhante: o Cometa Janis Joplin (1943-1970) iluminou e aqueceu os adeptos do Movimento Hippie. Assim como apareceu, o Cometa Joplin desapareceu em meio a sua trajetória.
O Furacão Jimmy Hendrix (1942-1970) destruiu a América, ainda acomodada ao modo de viver dos anos 50. Enlouqueceu os jovens e influenciou a nova maneira de viver que se delineava.
1969 – Milhares de jovens pioneiros deixam suas casas e caminhando, de carro, de carona vão ao Festival de Woodstock. A partir desse festival o mundo nunca mais seria o mesmo. Lá, Joplin e Hendrix levaram à loucura total 500.000 jovens.
Janis e Hendrix ficaram por mais um tempo e, em 1970, partiram em uma viagem sem volta. Não viram os hippies se tornarem os donos da década de70;
Woodstock virou história.
Virou lenda que os velhos das décadas futuras contarão, sem censura alguma, aos seus netos...

Não se tapa o Sol com a peneira! Aconteceu (acontece ainda). É realidade. É um lado triste da Historia da Cidade de São Paulo.
Tempos estranhos aqueles da década de 70.
Sofria-se muito com a “morte da bezerra”; filosofava-se a respeito das magníficas “formigas azuis do Ceilão” e sua importante função na natureza. Tínhamos discussões acirradas, pró e contra, sobre “O Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo” e debatíamos se “O Apanhador no Campo de Centeio” era assalariado ou “bóia-fria”... E dúvidas atrozes, do tipo: Quem governa a China? Mao, ou madame Mao?
Nos fins de semana, as noites eram repletas de “curtição” pelos botequins da vida e pelas travessas da Augusta, onde se conseguia a melhor “farinha” do mercado – a tal “branca de neve”, a “cocada”.
Nas “quebradas” da Consolação comprava-se “bolsas” do “gero ‘bão’ da Bahia” que se fumava em “bombas” ou “fininhos”. As “bombas” eram do tipo “passe pour tout” e os “fininhos” eram individuais...
Nos botecos e “muquifos” do Bexiga consumia-se vinho, cerveja e macarrão. Nas quitinetes da Praça 14-Bis, Rua Paim e Frei Caneca o “barato” era caldo de feijão com pinga e consumia-se muito pão. Depois do “fumacê” sempre batia aquela fome... Nos porões da Liberdade, Vila Buarque, transformados em pensões, tudo podia acontecer. Era o tempo do sexo, drogas e Rock’n Roll...
Nos Jardins e no Pacaembu, as festas eram regadas a “estupefacientes” e “psicotrópicos”. Era demais ficar “turbinado” e espiar pelo buraco do caleidoscópio, vendo as pecinhas coloridas a formar desenhos quais cristais de neve. Era um tremendo “barato”! Todos ficavam “au de là du Marrakech” (Pra lá de Marrakech.).
E, vez ou outra, um adepto de “Lucy in the Sky with Diamonds” (LSD) partia em uma viagem sem volta. Outros “baixavam” no Pronto Socorro das Clínicas por causa da overdose...
Na rua, a cocaína, o “fumo” “y otras cositas más” causavam “revertérios” além da imaginação: A “mina” tirou a roupa na Barão de Itapetininga e começou a dançar e a cantar dizendo que era a Mãe Natureza, a Eva Universal...
E eu? Eu que não curtia esse “lance” de drogas (Sexo e Rock? Sim! Sim! Sim!), o que fazia no meio deles? Eu vivia, oras! Eu era, para eles, a “ovelha psicodélica”.
E o que é uma ovelha psicodélica? É alguém como eu, ”maluco” ao natural. Alguém que nunca se acomoda, mas se adapta a tudo.
Nasci “muito louco”, “over” e tudo na vida me emociona e enlouquece. Não julgo, aceito. Não seria capaz de viver com determinadas pessoas, mas convivo com elas. Nasci em janeiro. Sou de Aquário, pô! Então, “Let the sunshine in...”
Pelo meu jeito de ser convivíamos todos muito bem. E alguém, quando eu disse ser uma ovelha negra entre eles, retrucou dizendo que eu era o mais maluco de todos e que eu estava mais para ovelha psicodélica.
E a coisa ficou mais evidente quando os “omi” “passaram batidos” pelos “malucos” e me deram uma “geral”, perguntando onde eu tinha “mocosado” a “coisinha”... É. Eu sem perceber, sem usar, tinha ficado, “com certeza, maluco beleza...” Quem anda com mancos acaba mancando.
A bem da verdade, não me drogava, mas era chegado num “mé”. “Me amarrava” em doses e doses de conhaque. Começava a beber em alto estilo: Umas doses de Domecq, outras de Napoléon e depois caia no Presidente e, fatalmente, terminava a noite “mamando” um Conhaque Palhinha ou Conhaque de Alcatrão São João da Barra. Eu e a Reca (Regina), a “porra-loca” mais gostosa lá da Avenida Angélica!
Entre “pegas”, sustos e “baratos”, vadiávamos pela noite, até cair de “porre” ou de sono. E quando “Morfeu” chamava, ia-se para casa ou pegava-se uma “beira” nos bancos do Trianon, nas escadarias da Bela Vista. Ou dormia-se pelo chão das quitinetes.
E todas as manhãs de domingo, nove horas, eu estava com meus amigos junto à banca de bolsas do Zezão, lá na feirinha da Praça da República. Estávamos mais amarrotados que papel de embrulho jogado no lixo. Passa-passa de gente de todo o tipo, vozes mercadejando produtos, cheiros enjoativos, motores, buzinas e o bimbalhar dos sinos da Consolação. E eu rançando a Patchoulli. Zezão, ainda sob o efeito do “bode” de uma noitada intensa estava caladão, lidando com alicates, fivelas e ilhoses. Eu, depois de uns “trocentos” conhaques tomados na noite tinha na boca um gosto de cabo de guarda-chuva e a “tchurma” estava mais calada do que mudo com laringite...
Ah! Eu era tão jovem nos anos 70! Tempos de “Paz e Amor”.
Hoje, ainda permanece nas minhas recordações a saudade dos amigos mortos pelo uso das drogas, permanece também as suas vozes junto a minha, gritando pela utopia “Paz, flores, liberdade, felicidade”...
Tenho ainda, bem guardadas, a velha bata e a pulseira que me acompanharam pelos anos 70.
É... Tempos muito, muito estranhos aqueles dos anos 70...
Uma década brilhante, mas triste. Onde muitos seguiram em frente sonhando a vida e outros tantos se deixaram ficar sonhando as drogas. Muitos se encontraram e outros tantos se perderam para sempre.
Logo os holofotes que iluminaram a década se apagariam e, assombrados, veríamos o fantasma da AIDS obscurecer a década de 80 que se iniciava...

Por: Wilson Natale


A RUA GUARAPUAVA, SEU ENTORNO E UM "DONNAIOLO"




M00CA, ANOS 50.
Meu tio era de uma beleza mediana. O cognome “il bello” (o belo) ficava por conta do “corujismo” da família. Afinal, para os meus avós “todos os seus patos eram cisnes”!... Titio não era nenhum Amedeo Nazzari ou um Vittorio De Sica e muito menos um Marcello Mastroianni. Mas, tinha charme, magnetismo – o famoso “sex appeal” (Apelo sexual).
Que tio Amedeo fosse um “donnaiolo” (mulherengo), ninguém tinha dúvidas. Carismático, bem-falante e “sexy”, envolvia a mulherada ao ponto de cada uma acreditar que - para ele - ela era “l’única al mondo” (A única no mundo).
E, de vez em quando, essas “únicas” encontravam as outras “únicas” e descobriam que não eram “a única”! Iradas, aos gritos, iam até a nossa casa tirar satisfações com o “bello Amedeo” que, mui corajoso, trancava-se no quarto e deixava a ”bomba estourar” nas mãos de vovó. E a “nonna” com os nervos à flor da pele, vassoura na mão, saía para dispersar o mulherio. A vizinhança se deleitava.
Para um “donnaiolo”, nada melhor do que morar na Rua Guarapuava. Lá, titio sentia-se como “una volpe dentro il pollaio” (Uma raposa dentro de um galinheiro). Lá, tio Amedeo “nadava no mulherio”. Ah! A Rua Guarapuava! Tão próxima às grandes fábricas e a um mundo de mulheres. E o mulherio eram as operárias das fábricas.
Colado à nossa casa estava a Chocolates Gardano (Mais tarde, absorvida pela Nestlé); mais adiante, a Alpargatas Roda; andando em direção à Rua dos Trilhos estava o Cotonifício Crespi. Seguindo-se pela Rua Conselheiro Justino (hoje absorvida pela Radial-Leste), atravessando os trilhos da “inglesa” (Santos a Jundiaí), entrava-se na Avenida Alcântara Machado (que estava sendo rasgada para dar origem à Radial-Leste),virava-se à esquerda, entrava-se na Rua da Mooca e ia-se ter à Fábrica de Tecidos Labor. Mulheres, mulheres, mulheres!
E titio adorava “fazer ponto” sobre as passarelas da “Inglesa” (Santos a Jundiaí) das Ruas da Mooca e Visconde de Parnaíba, aonde ele flertava com um mundo de operárias que iam e vinham...
Além das operárias, a imediação da Rua Guarapuava estava cheia de belezas locais. Havia ainda, as espanholas dos cortiços da Rua Visconde de Parnaíba e as italianas dos cortiços da Rua Caetano Pinto.
E titio vivia a vida de “na zanzara ne’mmielle” (uma mosca no mel)...
Vênus é pródiga com o mortal a quem ama. Dá-lhe o dom de ser amado. E quando o mortal abusa desse dom, Vênus se vinga.
Na trajetória “don juanesca” do meu tio Amedeo, Vênus se vingou muitas vezes, criando situações terríveis para ele, mas que eram hilárias para nós. Ela colocou no caminho do meu tio, mulheres possessivas, dramaticamente ciumentas. Mulheres que vigiavam o titio e faziam escândalo na frente de todos, ameaçando se matar... E matá-lo também! Quando não era isso, aparecia na vida dele as “mulheres carrapato” – aquelas que grudam e não soltam mais. Eram perigosíssimas! Apareciam de repente nos lugares onde ele estava, seguiam o titio por toda a parte. Houve uma que, com ou sem o titio em casa, ela entrava e “estacionava” na nossa sala a conversar com vovó e minha mãe. Titio “chiava”, mas não fazia nada... Um dia, não aguentando mais o incômodo e a “conversa mole", vovó disse “um monte” à desavergonhada, pegou-a pelo pescoço e a colocou na rua e, ambas fizeram o maior escândalo... Para alegria da vizinhança, claro!
Vênus nunca estava contente com as vinganças. Titio precisava de um corretivo mais eficiente: Então, colocou na vida dele uma mulher do tipo – como diríamos hoje – atração fatal. E pior, atração fatalíssima, dela pelo titio Amedeo...
Ermínia – a espanhola fazia parte de uma família que recentemente se mudara para a Rua Frei Gaspar, quase esquina com a Rua Guarapuava. Era tão feia a coitada. Pequenina, parecia uma anã. E meu tio, sobre ela, dizia uma frase divertida: “ Se essa dai tivesse de peito o que tem de nariz, até que “daria para o gasto”.
Pois é, minha gente. Foi “isso” o que Vênus colocou no caminho do meu tio.
Ermínia, quando viu o titio Amedeo pela primeira vez, apaixonou-se loucamente. Passava, repassava constantemente pela nossa rua, na esperança de ver o titio. Um dia, ela bateu de frente com ele. Fez caras e bocas, insinuou-se descaradamente e o titio, que não era cego e nem besta, saiu pela tangente, dizendo que já era comprometido e rápido foi saindo fora. Isso magoou Ermínia profundamente. Ferida pelo desdém do meu tio, cheia de ciúme e desejo de vingança, ela começou agir “nas sombras”. Vigiava, espionava o meu tio. Sabia de todos os seus passos. Mal ele começava mais um dos seus “namoros relâmpago”, a “namorada relâmpago” recebia uma carta anônima falando horrores e barbaridades sobre ele. Então, uma a uma, as “namoradas relâmpago” discutiam, ofendiam, jogavam a carta anônima na cara do meu tio, viravam-lhe as costas e iam embora. E o “donnaiolo” Amedeo desacreditado, desmoronou. Também, não era para menos. O mulherio fugia dele como quem foge do diabo! Ermínia devia estar exultante ao ver que as suas manobras maquiavélicas surtiam efeito. Mas, o “bello” Amedeo era um sortudo, nascera com o “rabo pra Lua”...
Vindo do trabalho, titio parou na porta da Celina, sua amiga de infância. Fazia um bom tempo que não se viam. Conversaram muito e meu tio despediu-se e foi embora. Na noite seguinte, Celina veio à nossa casa, trazendo uma carta na mão e contou ao titio que fora abordada por uma espanhola baixinha que lhe entregara a tal carta onde se lia barbaridades sobre ele. Celina não tinha certeza, mas achava que era a espanhola que morava na Rua Frei Gaspar. O rosto do meu tio passou da palidez à vermelhidão de quem está prestes a sofrer um ataque apopléctico. Ele agarrou a Celina pelo braço e saíram. Caminharam em direção à Rua Frei Gaspar. E eu atrás... Eu ia perder o “bafafá”? Nunquinha!
Lá, em frente a casa da Ermínia, o “bello” Amedeo fez um escândalo tremendo, discutindo com o pai da vilã! Pessoas abriam as janelas e se debruçavam nos parapeitos, para melhor apreciar o bate-boca. Outras apareciam nos portões e a criançada fazia um círculo em volta dos briguentos. Titio gritava feito um louco. Falava em ir à polícia; em processo por perseguição, difamação e calúnia. O pai da Ermínia, que era um homem com muita vergonha na cara, deu uns bofetões na filha e jurou ao meu tio que iria manter a malcriada com “as rédeas curtas”. Acalmado os ânimos, titio e eu acompanhamos Celina até a casa dela e voltamos para casa.
O escândalo da Rua Frei Gaspar rendeu muita fofoca e também comentários frutíferos. Tanto que as “namoradas relâmpago” começaram a escrever bilhetinhos, pedindo desculpas ao titio. E Ermínia reclusa, vigiada, parecia conformada com a “perda do seu grande amor”. As faladeiras diziam que ela pensava em entrar para um convento... “Vai tarde”! – Comentou o Titio, se persignando.
Passado mais de um mês, o “donnaiolo” Amedeo estava em plena atividade e feliz!... Foi quando começaram a aparecer as cartas, via correio. Chegavam duas a três, todas as semanas, sem remetente. E dentro do envelope apenas um lencinho branco, de papel fino, com a estampa de um beijo em batom vermelho e a frase: “Te quiero más que a mi alma”! (Quero-te mais que a minha própria alma!). Titio não tinha dúvidas. Eram cartas enviadas pela Ermínia! A letra era a mesma das cartas anônimas. O sangue subiu-lhe à cabeça, mas relaxou. Ele lera as primeiras, não leria as outras que, sabia, viriam.
As cartas foram acumulando e o acumulo começou a irritar meu tio. Então ele foi ao quarto de vovó, retirou alguns lenços de papel da caixa e foi ao banheiro “fazer as necessidades”. Limpou-se nos lencinhos e os dobrou delicadamente. Deu a descarga. Saiu do banheiro com os lencinhos “carimbados”, dobrados na mão. Foi para o quarto e os colocou dentro de envelopes; e os endereçou à Ermínia. Olhou para mim e disse-me, sorrindo: ”Já que a Ermínia não vai à merda, a merda vai até ela”! No dia seguinte enviou-as ao destinatário. Nunca mais ele recebeu cartas da espanhola enlouquecida.
E o meu tio aprendeu a lição!...
Não mesmo! Aprendeu sim, a ser mais cuidadoso, mais esperto!
“E Venere che se ne freghe! (E Vênus que se dane!)”.


Por  Wilson Natale


CAIXAS DE CORREIO



Estes são os tempos dos e-mails...
Minha caixa de correio está mortinha da silva!
Pior!Virou lixeira. Tornou-se um depósito de papéis anunciando tudo quanto o comércio da cidade, do bairro tem a oferecer e que quase nunca são bem-vindos.
Tudo ao MORADOR...
E somente os extratos, os boletos, as contas a pagar – confirmam que eu tenho um nome e existo como pessoa.
Nem sempre foi assim. Antes, as caixas de correio transbordavam de vida: Cartões de Páscoa, de Boas Festas, cartões de aniversário, convites de casamento, postais e cartas.
Uma infinidade de cartas vindas da Itália, da “Mèrica” (USA), da Argentina e do interior do Estado de São Paulo.
Os Carteiros tinham um papel importante nas nossas vidas. Não eram anônimos. Tinham um nome... Confiávamos neles.
Naquele tempo já tínhamos telefone. Mas, se uma ligação interurbana era demorada de se completar, a internacional demandava uma paciência de Jó. Contatava-se a telefonista, fazia-se o pedido de ligação e ficava-se na espera. Espera que poderia levar horas ou dias. Tudo dependia do quanto estava congestionado o Cabo Atlântico Sul. E, quando se conseguia a ligação era um terror: estática, ruídos, linhas que se cruzavam e a queda da ligação. E pagava-se uma fortuna/minuto por esse serviço.
Então, o mais sensato era escrever cartas. Recurso muito mais seguro. E, mais seguro ainda era enviar cartas registradas.
Desde sempre, encantava-me ver a minha “nonna” sentada à escrivaninha, no quarto do meu tio Amedeo, tendo diante dos olhos o velho “pince-néz” com aro de ouro e de lentes grossas. À esquerda da escrivaninha, as cartas recebidas dos parentes de Nápoles, Buenos Ayres e New York.
Sucessivamente vovó ia relendo cada carta e respondendo.
Iniciava-se o ritual...
Vovó selecionava os envelopes “via aérea” – mais fino que o comum – com o barrado em verde e amarelo, escrevia, um a um, o endereço do parente e, depois, o do remetente.
Feito isso, ela abria a caixa de papel de cartas e ia retirando um a um. Eram uns papéis finos, mais parecidos com papel de seda, papeis próprios para cartas internacionais, visto que pesavam menos.
Nesses papéis, numa letra miúda, porém legível, minha “nonna” respondia às cartas e reportava notícias nossas. Nunca uma carta tinha mais, ou menos de quatro folhas. Folhas que, dada à escrita miúda de vovó, valeriam por oito.
Carta a carta, as folhas eram cuidadosamente dobradas, enfiadas nos envelopes que eram lacrados com goma arábica.
Feito isso, vovó tirava da gaveta a balancinha manual e a caixa com as cartelas de selos, de valores variados.
Uma a uma as cartas eram pesadas e, consultando a tabelinha de preços que era fornecida pelos Correios, ela colava nas cartas o valor em selos. Caso a balancinha não estivesse “muito católica” vovó acrescentava um ou dois selos de centavos a mais.
Tudo pronto. Restava agora esperar pelo carteiro, a quem vovó dava “um agrado” pelo favor que ele nos prestava. E lá se ia embora o “nosso carteiro” levando as cartas para a agência, onde seriam novamente pesadas e carimbadas.
Feito! Cartas enviadas. Agora era só esperar por duas semanas pelas respostas. E qualquer demora ou atraso provocava uma revolução: Caixa de correio ansiosamente vigiada; carteiro “metralhado” com perguntas... Perguntas a que ele pacientemente respondia...
E é tão bom lembrar que, independentemente de se ter caixa de correio ou não, o carteiro, gritando, batendo palmas ou tocando campainhas, sempre anunciava a chegada da correspondência... Bom homem o “nosso” velho carteiro. Tão solidário que acabou se tornando um bilíngue por necessidade, para agradar os italianos e espanhóis.
Em certas ocasiões, o Carteiro era outro. Um funcionário mais sério, mais aprumado e semblante solene. Trazia nas mãos – Meu Deus, quanta angústia, quanta ansiedade! – um telegrama... Decididamente telegramas não eram bem-vindos... “Vade retro” ave de mau-agouro!...
Agora os tempos são dos e-mails, da correspondência quase instantânea. Tempos do MSN que nos dá o vídeomail: bate papo e vídeo conversa, cara a cara, ao vivo e a cores. Coisa maravilhosa isso!
Mas, não posso deixar de sentir a velha nostalgia daqueles tempos.
Como disse, a minha caixa de correio está morta. Virou lixeira. Não há mais a ansiedade ou a expectativa. Abro a caixa para limpar o lixo que ela contém e separar as contas.
Vez ou outra, eu “garimpo” uma carta ou cartão postal...
Vez ou outra, eu recebo uma oração com o pedido de repassá-la a outras 20, 30, 40 pessoas e mais as ameaças dos céus, caso eu deixe de repassar... “Vá esperando sentado! Quem fez a promessa, que a cumpra”!
Vez ou outra, eu me divirto lendo os panfletos das tarólogas, mães de santo, como a “popagranda” da tal VÓ MARIA, que se dispõe, por um preço módico, a resolver todos os “pobremas” da nossa vida... E o da vida dela, claro!...

Por  Wilson  Natale