sábado, 22 de março de 2014

VIADUTO DE SANTA EFIGENIA - 100ANOS!

VIADUTO DE SANTA EFIGENIA EM 1913


Alguém, Paulista e Paulistano pode me dizer, em número de quilômetros, o quanto andou, percorrendo, indo e vindo, pelo Viaduto de Santa Efigênia?
Duvido que alguém saiba... Nem eu mesmo o sei. Com certeza foram muitos!
Quem, Paulista e Paulistano, hoje, ainda se lembra dele? Quero acreditar que, muitos ainda se lembram... Que não o esqueceram.
Mas, ao que parece, a Prefeitura, a Regional da Sé, a São Paulo Turismo, esqueceram dele.
Amanhã, ao que me parece, o Viaduto de Santa Efigênia completará  os seus 100 anos, sem bolo e sem festa. E sem convidados...
Sem festa, O MAIS ANTIGO VIADUTO EM USO DE SÃO PAULO está, como um velho hóspede de um desses depósitos, pomposamente chamados de Casa de Repouso, à espera de parentes que não virão.
_ “NATALE, VOCÊ SE ENGANOU! O MAIS ANTIGO VIADUTO DE SÃO PAULO É O DO CHÁ”!
_ “NÃO ME ENGANEI, NÃO! O PRIMEIRO VIADUTO DO CHÁ (inaugurado em 1892) FOI DESMONTADO Entre 1938-1939, QUANDO O SEGUNDO VIADUTO, EM CONCRETO, FOI INAUGURADO (1938). E O SEGUNDO VIADUTO AINDA NÃO CHEGOU AOS 80 ANOS”.
Penso com ironia no ano de 1992, quando se fez com toda a pompa e circunstância, as “festas de 100 anos” de um viaduto que tinha pouco mais de 50 anos...
Voltemos ao Santa Efigênia.
Ao contrário do antigo Viaduto do Chá, o Viaduto de Santa Efigênia é uma obra de arte.
Projeto de Júlio Micheli, parte metálica importada da Bélgica e montagem a cargo da Firma Lidgerwood Manufaturing Co. Ltd.
O peso do aço dissolve-se, na beleza do projeto, passando a impressão de leveza.  Arcos apoiados em pedra de cantaria finamente recortada. Os parapeitos da pista  é um fino trabalho de serralheria, estilo “Art Nouveau”. E neles, de espaço em espaço, afixadas luminárias no mesmo estilo. Nas calçadas, postes em forma de tridentes sustentando a rede elétrica dos bondes. E, do lado esquerdo de quem vai do Largo São Bento ao Largo de Santa Efigênia, uma escada levava ao sanitário público (local onde hoje está o mezanino da estação São Bento do metro). Um dos primeiros sanitários a ser cuidado, sanitizado e vigiado pela prefeitura.
Viaduto de Santa Efigênia. 100 anos embelezando a Cidade, poupando a ´população das agruras da Ladeira de São João e, mais que isso, 100 anos como testemunha da História de São Paulo, como as Revoluções de 1924 e 1932.
E 100 anos -  um século, de sua história pessoal:
No começo, os bondes eram “os senhores do viaduto”. Então vieram os automóveis. Velhos “landaus”, “coches” e suas parelhas foram aposentados. Bondes e automóveis! Bondes,  automóveis e – Meu Deus! – os “Omnibus” (ônibus)!... Bondes, automóveis, ônibus, lotações, utilitários, motos... Depois Lambrettas, Vespas, Volkswagens, Dauphines, Gordines, DKWs e, acredite, um trambolho de nome Romi-Izzeta!...
São Paulo, uma cidade evoluída, progressista. Da pra acreditar que ainda circulam carroças de entrega? Pois é!...


E o Viaduto, através das décadas foi sendo abalado na sua capacidade estática e rolante, necessitando, cada vez mais, de reparações onerosas. Quase desativado foi deixado ao Deus dará... As lindas luminárias desaparecidas há muito tempo, o banheiro em extrema decadência foi fechado. Agonizava o viaduto.
Durante e depois da construção da Estação São Bento do Metro, de passagem de pedestre, o Santa Efigênia foi tomado pelos ambulantes.
Com a revitalização do Vale do Anhangabaú, cogitou-se o desmonte do Viaduto. O clamor público fez com que o Patrimônio Histórico reagisse rápido tombando o Santa Efigênia. Restaurado, transformado em calçadão ele continua lá. Sabe Deus por quanto tempo!
Ele é velho, velhíssimo. Mas é tão Paulistanamente Paulista. “
Alguém, Paulista e Paulistano pode me dizer, em número de quilômetros, o quanto andou, percorrendo, indo e vindo, pelo Viaduto de Santa Efigênia?...

Por  Wilson Natale



NOS VELHOS TEMPOS DA "DITA"




(- “Encosta ai! Documentos na mão” !)

Eu conservara os meus documentos com amor e carinho até o mês de março de 64. Até então, tudo parecia novinho em folha.
Nos meus tempos do Primário não havia Carteira de estudante. Era somente o Boletim que levávamos para casa, no fim do mês, para que os pais assinassem e, no dia seguinte, o devolvíamos. Então, o único documento que eu usava era o Registro de Nascimento. E o usava quando ia sozinho às matinês dos cinemas do bairro, para provar que era maior de 10 anos, ou quando viajava com meus pais para o litoral, ou para o interior. E, como eu ia muito às matinês, para preservar o Registro de Nascimento original, meu pai me presenteou com uma segunda via.
Nos tempos de Ginásio eu tinha a famosa Caderneta de Estudante: de identificação, presença, notas e observações. Mas, como era fácil falsificar a data de nascimento (Um palito, com algodão na ponta, embebido em água sanitária, passado levemente sobre o ano escrito e ele desaparecia. Deixava-se secar e, depois era só escrever um novo ano. Então se podia ter 14 ou 16 anos.), alguns cinemas exigiam também o Registro.
Depois, a Carteira de Trabalho do Menor substituiu o registro. Exceção feita a Carteira escolar que nos dava direito a pagar meia-entrada.
Mas, em 31 de março de 64 (Na verdade, 1º de abril – “dia da mentira”.) acontece o “glorioso”, o “libertador” golpe militar que deu origem a uma Ditadura violenta que não tinha nada de “redentora”...
Fins de 1964 - Minha Carteira de Trabalho do Menor estava um “bagaço”.  A Carteira de Estudante então estava na iminência de desfazer-se, despencar. O Registro então, todo puído!É que, “por dá cá aquela palha”, os “milicos” nos paravam constantemente e, de maneira grosseira e descuidada, examinavam os nossos documentos.
No meu caso, pela altura e por aparentar mais idade do a que tinha, a coisa ficava mais complicada quando eu era abordado pela PE (Polícia do Exército).  –“Cadê o Certificado de Alistamento Militar”?... Não tinha e nem tinha idade para tê-lo. Então começava a demorada e minuciosa “olhada” nas carteiras de trabalho e estudante. E, claro, no registro de nascimento. Comparado os três documentos eu ouvia o famoso “Está liberado! Pode ir”!...
De março a outubro de 64, eu já havia “detonado” mais três  vias de registro de nascimento (Na verdade, 3ª, 4ª e 5ª vias). Chegara o momento de  tirar a Carteira de Identidade.
Aos 16 anos, muito feliz, eu segurava a minha novíssima Carteira de Identidade, emitida em 03 de novembro de 1964, em São Paulo – SP., nos Estados Unidos do Brasil, hoje República Federativa do Brasil. Viva!
Eu tinha uma Cédula de Identidade! O Registro de Nascimento fora finalmente aposentado. Mas, na prática, mudou quase nada. Facilitou sim, para os “milicos” que, quando me “enquadravam” exigiam impudicamente que eu lhes exibisse a minha Identidade, a Carteira de Trabalho e  de Estudante. Só faltavam pedir a Carteira de Cadastro da CMTC que me dava direito aos passes de ônibus...
Naqueles “dias maravilhosos” da ditadura, a conversa nas casas eram as mesmas: “Filho, você vai sair”?  “Vou!”  “Pegou tooodos os documentos”?  “Peguei, sim”...  “Pegou meesmo, meu filho”?  “Orra, mãe! Para com isso! Eu não sou retardado”!  “Falo para o seu bem, filho. Se “eles” lhe prendem, adeus ”!...
E “vivas” à ditadura que foi aumentando o fardo do povo e o fardo dos nossos bolsos, acrescentado mais documentos!
Em 1965, entre os documentos apresentados aos “omi” e aos “milicos” estreei o meu mais recente documento: o Certificado de Alistamento Militar. Certificado que não me agradava nada, diante da perspectiva de me transformar em um “reco”.
Em março de 1966, tive em mãos a minha primeira Carteira Profissional como maior e o Título de Eleitor. E fiz parte da lista dos convocados excedentes do Exército. Fui lá, no Cambucí, prestar o Juramento à Bandeira e retirar o meu Certificado de Reservista de 3ª categoria. Fiquei tão feliz que cheguei à minha casa gritando: “Allelluiah”! E, embora nunca gostando de dirigir, vale comentar aqui, que é desse ano a minha Carteira Nacional de Habilitação.
1968 foi o ano das “RPM” (revoluções por minuto). Era chegar ao Centro à noite e ouvia-se a miúdo: “Encosta ai, para averiguação”!... “Identidade? Confere! Profissional? Confere! Estudante? Confere! Reservista? Confere! Eleitor? Confere!”... Perdia-se um tempão reservado àquilo que pretendíamos que fosse uma noitada  ou fim-de-semana feliz! E, muitas vezes éramos premiados: em intervalo de poucos minutos, mais adiante, “encostávamos para mais uma averiguação”.
Em 1969 – tempos do AI5 - a coisa ficou preta. Vez ou outra, com ou sem os documentos éramos convidados a fazer um “tour” dentro de um “camburão”. Íamos à delegacia, para uma averiguação mais detalhada. Pelos nossos nomes procuravam por “capivaras” (fichas criminais), via telefone com o DOPS. Passavam-se horas até ouvirmos o tal “nada consta”. Sem um “desculpe pelo incômodo”, nos mandavam embora.
Em uma dessas “viagens”, um policial da Civil nos aconselhou a pedir um Atestado de Idoneidade. Mais que depressa tratei disso!
E o atestado funcionou muitas vezes. Mas não era um salvo-conduto. Com ou sem documentos, com ou sem atestado fui parar na delegacia... Para averiguação. Quase cheguei a ficar “sócio” da antiga delegacia da Rua Frei Caneca e amigo do meu xará, o delegado, que “tão bem” nos recebia... Ahahahahaaaa!
Mais tarde a ditadura soltou o faminto “Leão” do IR. Mais um “troço” pra carregar. Agora tínhamos CIC ou CPF ou CPJ...
E caminhei eu, caminhamos nós pela ditadura levando nos bolsos todos os documentos a que tínhamos direito. Documentos tão usados e manuseados que necessitavam de segundas e terceiras vias. E o mais importante: As velhas Carteiras Profissionais deterioradas,  remontadas, rearranjadas com cola ou fita “Durex” ficaram guardadas em gavetas preservando os velhos registros dos empregos que tivéramos...
2011 – Saio às ruas carregando os meus documentos: Crachá, Identidade, CPF, Cartão do Plano Médico, Cartão magnético para a condução... Vou andando, com aquela sensação de bolsos vazios e a impressão de haver esquecido algo... Logo nossos bolsos vão ficar mais vazios com a nova Cédula de Identidade que englobará todos os outros documentos.


Por Wilson Natale