quinta-feira, 20 de março de 2014

460 Anos: DESMEMÓRIAS DE SÃO PAULO

 




Amo a Cidade de São Paulo incondicionalmente. Não me importa mais se outros a amem ou não. Eu a amo e basta!
25 de janeiro de 2014:-
Estou em minha casa, escrevendo este texto. Fazer o quê no Centro Histórico? “Curtir” o Pão e Circo? Fotografar? Sentir em cada passante uma infinidade de impressões e sentimentos, mas  não sentir-lhe sequer um átimo de orgulho por ser paulistano? Não mesmo! Fico aqui escrevendo em forma de memória as desmemorias de São Paulo... E ainda amargando a desmemoria da edilidade  com relação ao centenário do Viaduto Santa Efigênia (1913-2013).
Mas, antes de falar do monumento mais antigo de São Paulo que, neste ano de 2014, completa 200 anos, a minha memória insiste, inferniza: “Já que o assunto diz respeito ao “Bixiga”, mesmo que não seja um monumento bicentenário, você tem que falar dessa tradição nascida da paixão popular por esta cidade”.
Já que a memória insiste, vamos lá.
Essa tradição, “bixiguense” com muita honra, nasceu tímida.
Resolução tomada, “mammas” brancas, negras, mestiças e algumas padarias do bairro, começaram a fazer UM BOLO PARA SÃO PAULO.
No meio da rua, algumas mesas, unidas uma à outra, um bolo enorme que tomava toda a superfície delas e os convidados – o povo do “Bixiga”, todos os paulistanos e os paulistas ou não, viessem de onde viessem.
Em pouco tempo a festa de aniversário de São Paulo virou tradição popular e, a cada ano, as mesas e o bolo aumentavam um metro no comprimento, acompanhando a idade da cidade. Virou atração turística!
Era uma loucura feliz! A multidão reunida em volta da mesa imensa, com suas sacolas, panelas, “tupperwares”. A um sinal, o bolo era atacado com as mãos. Em pouco tempo ele “evaporava”, restavam apenas migalhas sobre as mesas anexadas e migalhas e glacê nos beiços da criançada. Viva São Paulo!
Mas, como todo o paraíso tem sua serpente de tocaia, sabe-se lá porque, deitaram “olhos gordos” sobre a festa. Ela passou a ser um evento no catálogo oficial. E o bolo do aniversário da cidade passou a ser feito pelos confeiteiros do SESI.
Um belo dia, sem mais, nem menos, talvez por desentendimentos, o SESI deixou de fazer o bolo. E agora, José? A festa acabou e você não viu! Não viu a tradição popular, “bixiguense” e paulistana mais importante da cidade agonizar e morrer.
E agora, Natale? Você não viu? Não viu e nem comerá, ao menos com os olhos, o bolo de aniversário, de 460 metros que não foi oferecido a São Paulo...

Memória satisfeita, eu volto ao  bicentenário monumento e ao coração do “Bixiga” do início do século XIX.
No século XIX, o Brasil muda. A família real muda-se, primeiro para a Bahia, e depois, acomoda-se no Rio de Janeiro, onde é instalada a nova metrópole. Deixa também de ser vice-reino e transforma-se em reino: Reino do Brasil, Portugal e Algarves.
É nesse contexto que a cidade de São Paulo começa a mudar e, paulatinamente, a se embelezar.
E grandioso foi o Capitão General e Governador, o Marques de Alegrete que com mãos de ferro governou a cidade e a província. Fez funcionar a máquina pública acercando-se de funcionários competentes e interessados em fazer dessa cidade a melhor.
E a cidade teve tantos benefícios e “alindamentos benéficos a se ver”.
O Senhor Marques beneficiou tanto a cidade e seu povo que, pela vontade popular, o Engenheiro e Marechal Daniel Pedro Muller projetou uma Memória (Padrão de pedra que memoriza um fato, uma figura ilustre para a posteridade.) para perpetuar a obra desse governador.
Aprovada a obra, escolheu-se, como local, uma elevação sob a Rua do Paredão (atual Xavier de Toledo), entre a Ladeira do Piques (atual Ladeira da Memória) e a Ladeira dos Pinheiros (depois Ladeira da Consolação e atual Rua Quirino de Andrade). E ali se construiu, em pedra de cantaria, o obelisco ou pirâmide do Piques, como diziam os antigos paulistas, com uma inscrição e a data 1814. E o local não serviu apenas à justa homenagem. Em benefício do povo se construiu também um chafariz público (o chafariz sobreviveu até o início do século XX)
E o Largo do Piques, por uns tempos chamou-se Largo da Memória, depois voltou a ser do Piques, mais tarde Largo do Bexiga, Largo do Riachuelo (atualmente parte sul da Praça da Bandeira).
Mas, ainda hoje o pequeno largo que o circunda chama-se da Memória. Mas a Pirâmide ainda é do Piques.
No século XX a cidade dia-a-dia vai sofrendo mudanças radicais. A paisagem humana e urbana vai-se modificando num piscar de olhos. No início dos anos 10, há uma necessidade cívica de preparar a cidade para o evento de 1922, o centenário da Independência. Afinal, foram os paulistas que deram ao Brasil o tamanho que ele tem! Aqui, nestes chãos, quis o destino que se fizesse a Independência! Nestes chãos o Brasil se fez Nação!...
E nesse afã de deixar linda a cidade, em 1919, houve por bem restaurar o obelisco e reformar totalmente o Largo da Memória. Primeiro porque se descobriu que o monumento era o mais velho de São Paulo e já centenário. Segundo porque o Largo do Riachuelo à sua frente estava todo modernizado com construções novas.
Então, graças ao projeto do Engenheiro Victor Dubugras do Artista plástico Wasth Rodrigues, o Largo da Memória tem a mesma aparência que sobrevive  até os nossos dias. Mesmo degradado, em meio à imundície, nos seus duzentos anos de existência, parece que a Pirâmide insiste em sobreviver somente para acusar e ironizar. E bicentenária que é será sempre dela a gargalhada final.
Eu explico:
Escrevi acima “uma inscrição e a data 1814”. A omissão foi proposital. Sem ela não haveria o nosso riso irônico ou a nossa gargalhada final.
Vejam vocês que, em algum tempo entre os cem anos de vida da Pirâmide do Piques e a reforma de 1919, sumiu a inscrição e a data. Depois da reforma colocaram apenas uma lápide com a data 1814.
Mas, em um velho livro, de1865, da biblioteca da Faculdade de Direito de São Francisco descobri a descrição da Pirâmide do Piques e a sua inscrição original.
Aqui vai ela:
“AO ZELO DO BEM PUBLICO”
ANNO DE 1814

Será que os tantos políticos “zelosos”, que existem por ai, vão cuidar desse monumento que é o mais velho de São Paulo?... Talvez não. Afinal eles têm tantos bens públicos para “lesar”. Ops! Eu quis escrever “zelar”... (risos)


Por Wilson Natale