quinta-feira, 27 de março de 2014

"MALUCOS-BELEZA" (ANOS 70)



O lado trágico da Paulicéia”

(crônica da Cidade nos Tempos de Sexo, Drogas & Rock’n Roll)

Toda a Crônica é desencadeada por alguma razão. As razões desta minha Crônica são três. Razões cristalizadas em velhas fotos.
Como a vaticinar o final dos tempos, surge nos céus um cometa brilhante: o Cometa Janis Joplin (1943-1970) iluminou e aqueceu os adeptos do Movimento Hippie. Assim como apareceu, o Cometa Joplin desapareceu em meio a sua trajetória.
O Furacão Jimmy Hendrix (1942-1970) destruiu a América, ainda acomodada ao modo de viver dos anos 50. Enlouqueceu os jovens e influenciou a nova maneira de viver que se delineava.
1969 – Milhares de jovens pioneiros deixam suas casas e caminhando, de carro, de carona vão ao Festival de Woodstock. A partir desse festival o mundo nunca mais seria o mesmo. Lá, Joplin e Hendrix levaram à loucura total 500.000 jovens.
Janis e Hendrix ficaram por mais um tempo e, em 1970, partiram em uma viagem sem volta. Não viram os hippies se tornarem os donos da década de70;
Woodstock virou história.
Virou lenda que os velhos das décadas futuras contarão, sem censura alguma, aos seus netos...

Não se tapa o Sol com a peneira! Aconteceu (acontece ainda). É realidade. É um lado triste da Historia da Cidade de São Paulo.
Tempos estranhos aqueles da década de 70.
Sofria-se muito com a “morte da bezerra”; filosofava-se a respeito das magníficas “formigas azuis do Ceilão” e sua importante função na natureza. Tínhamos discussões acirradas, pró e contra, sobre “O Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo” e debatíamos se “O Apanhador no Campo de Centeio” era assalariado ou “bóia-fria”... E dúvidas atrozes, do tipo: Quem governa a China? Mao, ou madame Mao?
Nos fins de semana, as noites eram repletas de “curtição” pelos botequins da vida e pelas travessas da Augusta, onde se conseguia a melhor “farinha” do mercado – a tal “branca de neve”, a “cocada”.
Nas “quebradas” da Consolação comprava-se “bolsas” do “gero ‘bão’ da Bahia” que se fumava em “bombas” ou “fininhos”. As “bombas” eram do tipo “passe pour tout” e os “fininhos” eram individuais...
Nos botecos e “muquifos” do Bexiga consumia-se vinho, cerveja e macarrão. Nas quitinetes da Praça 14-Bis, Rua Paim e Frei Caneca o “barato” era caldo de feijão com pinga e consumia-se muito pão. Depois do “fumacê” sempre batia aquela fome... Nos porões da Liberdade, Vila Buarque, transformados em pensões, tudo podia acontecer. Era o tempo do sexo, drogas e Rock’n Roll...
Nos Jardins e no Pacaembu, as festas eram regadas a “estupefacientes” e “psicotrópicos”. Era demais ficar “turbinado” e espiar pelo buraco do caleidoscópio, vendo as pecinhas coloridas a formar desenhos quais cristais de neve. Era um tremendo “barato”! Todos ficavam “au de là du Marrakech” (Pra lá de Marrakech.).
E, vez ou outra, um adepto de “Lucy in the Sky with Diamonds” (LSD) partia em uma viagem sem volta. Outros “baixavam” no Pronto Socorro das Clínicas por causa da overdose...
Na rua, a cocaína, o “fumo” “y otras cositas más” causavam “revertérios” além da imaginação: A “mina” tirou a roupa na Barão de Itapetininga e começou a dançar e a cantar dizendo que era a Mãe Natureza, a Eva Universal...
E eu? Eu que não curtia esse “lance” de drogas (Sexo e Rock? Sim! Sim! Sim!), o que fazia no meio deles? Eu vivia, oras! Eu era, para eles, a “ovelha psicodélica”.
E o que é uma ovelha psicodélica? É alguém como eu, ”maluco” ao natural. Alguém que nunca se acomoda, mas se adapta a tudo.
Nasci “muito louco”, “over” e tudo na vida me emociona e enlouquece. Não julgo, aceito. Não seria capaz de viver com determinadas pessoas, mas convivo com elas. Nasci em janeiro. Sou de Aquário, pô! Então, “Let the sunshine in...”
Pelo meu jeito de ser convivíamos todos muito bem. E alguém, quando eu disse ser uma ovelha negra entre eles, retrucou dizendo que eu era o mais maluco de todos e que eu estava mais para ovelha psicodélica.
E a coisa ficou mais evidente quando os “omi” “passaram batidos” pelos “malucos” e me deram uma “geral”, perguntando onde eu tinha “mocosado” a “coisinha”... É. Eu sem perceber, sem usar, tinha ficado, “com certeza, maluco beleza...” Quem anda com mancos acaba mancando.
A bem da verdade, não me drogava, mas era chegado num “mé”. “Me amarrava” em doses e doses de conhaque. Começava a beber em alto estilo: Umas doses de Domecq, outras de Napoléon e depois caia no Presidente e, fatalmente, terminava a noite “mamando” um Conhaque Palhinha ou Conhaque de Alcatrão São João da Barra. Eu e a Reca (Regina), a “porra-loca” mais gostosa lá da Avenida Angélica!
Entre “pegas”, sustos e “baratos”, vadiávamos pela noite, até cair de “porre” ou de sono. E quando “Morfeu” chamava, ia-se para casa ou pegava-se uma “beira” nos bancos do Trianon, nas escadarias da Bela Vista. Ou dormia-se pelo chão das quitinetes.
E todas as manhãs de domingo, nove horas, eu estava com meus amigos junto à banca de bolsas do Zezão, lá na feirinha da Praça da República. Estávamos mais amarrotados que papel de embrulho jogado no lixo. Passa-passa de gente de todo o tipo, vozes mercadejando produtos, cheiros enjoativos, motores, buzinas e o bimbalhar dos sinos da Consolação. E eu rançando a Patchoulli. Zezão, ainda sob o efeito do “bode” de uma noitada intensa estava caladão, lidando com alicates, fivelas e ilhoses. Eu, depois de uns “trocentos” conhaques tomados na noite tinha na boca um gosto de cabo de guarda-chuva e a “tchurma” estava mais calada do que mudo com laringite...
Ah! Eu era tão jovem nos anos 70! Tempos de “Paz e Amor”.
Hoje, ainda permanece nas minhas recordações a saudade dos amigos mortos pelo uso das drogas, permanece também as suas vozes junto a minha, gritando pela utopia “Paz, flores, liberdade, felicidade”...
Tenho ainda, bem guardadas, a velha bata e a pulseira que me acompanharam pelos anos 70.
É... Tempos muito, muito estranhos aqueles dos anos 70...
Uma década brilhante, mas triste. Onde muitos seguiram em frente sonhando a vida e outros tantos se deixaram ficar sonhando as drogas. Muitos se encontraram e outros tantos se perderam para sempre.
Logo os holofotes que iluminaram a década se apagariam e, assombrados, veríamos o fantasma da AIDS obscurecer a década de 80 que se iniciava...

Por: Wilson Natale



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