sexta-feira, 28 de março de 2014

OS FANTASMAS DA TV GAZETA



(O São Paulo Insólito)

Contar um conto é acrescentar um ponto. O mesmo acontece com as lendas urbanas. Como no conto, ou causos, as lendas urbanas podem aumentar o seu conteúdo sem que os acréscimos interfiram no conteúdo original.
Outras vezes a lenda urbana nasce de um fato inverídico, de uma situação fictícia que, no efeito dominó que é a lenda, vai virando verdade e é acrescida de outras verdades falsas...
Meu sobrinho Alexandre contou-me o que lera em um desses blogs da vida. Blog voltado ao insólito.
Alex falava-me dos assombramentos do edifício da Fundação Cásper Líbero. Dizia-me que, por lá, os fantasmas faziam das suas.
Eu, ouvindo, não sabia se devia rir à beça, ou interromper. Deixei que ele continuasse a narrativa. Queria ver aonde ia dar essa - para mim - novíssima lenda urbana.
Contou-me que, desde o Colégio Objetivo aos estúdios da Rádio e da TV Gazeta, os fantasmas “faziam das suas” na Fundação. Falou-me mais: Que conversando com os amigos soube de muitas histórias aterradoras acontecidas por lá. Disse-me que o pai de um amigo, no tempo em que lá fazia o Cursinho, vira o fantasma de uma estudante que se suicidara no banheiro. Outros contaram que muita gente entrava no elevador, dizia à ascensorista o andar em que iria descer e, ao abrir-se a porta no andar desejado, a ascensorista havia desaparecido... E eu sufocando de tanto conter o riso...
Falou-me de efeitos físicos. Que fantasmas escondiam coisas, batiam em portas, chamavam as pessoas pelos nomes, etc., etc..
Alexandre foi falando, descrevendo... Eu ouvindo e sufocando...
Complementou dizendo que a causa, a razão do prédio ser tão assombrado era o fato de que ele foi construído em solo amaldiçoado. Que naquele local, há muitos e muitos anos, existiu um pelourinho, onde escravos foram chicoteados até a morte...
Não deu para segurar mais. Explodi em ruidosa gargalhada.
Meu sobrinho, abestalhado e com cara de interrogação, olhava para mim. Eu, findo o ataque de riso, contei a ele a verdadeira história do assombramento da Fundação:
Nunca houve pelourinho no terreno da Fundação. Houve um pelourinho sim, ou melhor, um “tronco”, lá na região do Paraíso, local onde existiu a Chácara do Quebra-Bunda, lugar onde muito dono de escravos levava os seus infelizes para serem chicoteados sem piedade, até ficarem descadeirados. Daí, vem o nome da chácara que pertenceu a José Veloso de Oliveira.
Contemporâneo do Cursinho, depois Colégio Objetivo, eu nunca ouvi falar, li, ouvi - nem no rádio ou televisão - sobre morte natural ou suicídio no Colégio.
E, do Objetivo aos estúdios da TV Gazeta, jamais alguém falou dos tais fantasmas. E, também, nunca se falou, ou se noticiou algo sobre a tal ascensorista que aparecia e desaparecia.
Esta lenda urbana nasceu de uma piada e “pegadinha” que circulou por São Paulo inteiro. E está ligada, não ao prédio da Fundação, mas à TV Gazeta.
A TV Gazeta, canal 11 foi inaugurada em grande estilo. Tudo nela era de primeira linha. O último grito em tecnologia televisiva! Afinal ela fora criada para fazer parte da Faculdade de Comunicação da Fundação Cásper Libero. Porém, alguma coisa acontecia com a transmissão. Nos aparelhos do estúdio, a imagem era perfeita, mas nos receptores caseiros a imagem era ruim, distorcida, com movimentos horizontais e verticais. Os apresentadores apareciam duplicados, ou com uma aura a que chamávamos “fantasmas”. Não havia regulagem de antena, interna ou externa que solucionasse o problema. Algumas pessoas instalavam uma antena somente, para de forma sofrível, sintonizar a Gazeta.
Muitos diziam que o problema era o local, onde havia outras antenas mais potentes, tanto das rádios como de televisão. E a imagem só melhorou quando a TV Globo, por concessão, instalou a sua antena de transmissão no prédio da Fundação e nela adicionou os novos transmissores da TV Gazeta.
Naquele tempo, eis a piada e a “pegadinha” circulavam pela cidade:

“Você sabe qual é o lugar mais assombrado de São Paulo”?
“Sei, não... Qual é”?
“É a TV Gazeta! Ta assim de fantasmas lá”!
“Nossa! Preciso ir até lá, para ver”!
“Precisa não! É só ligar a TV e sintonizar a Gazeta”!...
“E ai, Zé! Ce sabe qual o local mais assombrado de São Paulo”?
“Não”...
“É a TV Gazeta”! Ta assim de fantasma, ó!...

Tai, a piada e “pegadinha” que deu origem à lenda urbana do prédio da Gazeta.

Por  Wilson Natale

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