domingo, 23 de março de 2014

O ESTOURO DA "BOYADA"


(A hora e a vez das feministas)

Boyada: – Bando, agrupamento de Office-boys (risos).

Fui um adolescente paulistano em plena Ditadura!
Ah! Os anos 60... Foi assim: Juscelino deixou a Presidência do Brasil ainda em clima de festa. Secou os cofres públicos, mas nos legou Brasília, a nova Capital Federal. A “Corte” saiu do Rio de Janeiro e mudou-se, mui a contragosto, para o Planalto Central. E o Rio de Janeiro - Distrito Federal - virou Estado da Guanabara.
Pois bem: Saiu o “Jusça”, ainda no “porre” da inauguração da “Novacap” e em seguida, subiu a rampa o Jânio Quadros, o homem que pretendia nos governar por “bilhetinhos” e de uma forma absoluta, ditatorial e paternalista. E o homem fez das suas no poder. Até condecorou o Cheguevara! E isso deu o que falar... Isso e a situação do Brasil fizeram com que as Forças Armadas começassem a se articular. Então, qual criança mimada e petulante, o Jânio resolveu renunciar, achando que “logo voltaria nos braços do povo”. Não voltou!... Ahahahaa! Assumiu o seu Vice, o João Goulart. Ai, a coisa degringolou de vez. Suas medidas salvacionistas e populistas (que uns diziam socialistas e, outros, comunistas) acabaram por levar o país à Revolução de 64. O bom do governo “Jango” foi Maria Theresa Goulart – a Primeira-dama mais “gostosa” que o Brasil já teve desde Nair de Teffé (Anos 10. Esposa de Hermes da Fonseca). E viva a Ditadura! Mas não por muito tempo. O “namoro” durou pouco...
Nos anos 60, a boyada “estourava” pelo Centro da Cidade, rumo aos seus compromissos e, no corre-corre, atropelava os transeuntes. Com os “milicos no poder”, transitar pelo centro de São Paulo era um misto de terror e prazer, êxtase e agonia. E sustos! Assalto a bancos, invasão do Martinelli que estava se transformando em um cortição vertical, onde os milicos acreditavam que havia “células” e terroristas (Puro mito.); suspeitas de bombas nos bancos e órgãos públicos. Os terroristas roubavam, matavam e morriam. E os sequestros?! Era o terror ganhado espaço na cidade.
Mas, um Office-boy era acima de tudo um otimista. “Borravam-se” de medo, mas se divertiam muito. E os boys transformavam a pichação “Abaixo a Ditadura” em “Abaixo a Dentadura” e “Abaixo a ‘Dita’ Dura”... Não! A ‘dita’ dura, não mesmo! Tem que continuar dura!
E havia repressão por toda parte. E passeatas. Passeata da turma do TFP, pedindo assinaturas contra todos e contra tudo. Estudantadas políticas, conflitos. Enfim, reprimia-se tudo, rebelava-se contra tudo. E estavam na moda os cassetetes de borracha – a grande estrela urbana do período!
A Cidade sufocada, quase em Estado de Sitio, voltou a uma normalidade incerta. Os “reaças” ainda faziam das suas; as greves se intensificaram e muitas, muitas passeatas relâmpago. Reação e Situação ainda  se enfrentavam. O governo então “endureceu”...
A turma da Ordem Política e Social mantinha o povo sob controle, tanto que a cidade deu uma aquietada. Mas, para não cair na ociosidade e perder “a mão”, o DOPS inventou mil e uma maneiras de repressão. Veio então, a “Moralizadora”. Começaram por vigiar a “Boca do Lixo”, os puteiros femininos e gays de Santa Efigênia e Campos Elíseos. Mas, não bastava: eles foram atrás das “meninas de luxo” que “trabalhavam” em boates do tipo “La Ronde” e “Michel”; perseguiram as prostitutas que “faziam a vida” pelas ruas; as lésbicas do Ferro’s Bar e os travestis da Avenida São João.  Era a vez das mulheres. Perseguiram até a Cassandra Rios e a Adelaide Carraro! E volta e meia, os “porta-jóias” (camburões) levavam as “táxi-girls” dos “dancings”, as “vedettes” e “show-girls” dos teatros de revista. Então, o  mulherio começou a “chiar”. E a se organizar, agrupar-se e sair para as ruas reivindicando os seus direitos... E, claro, direitos negados! Também iam presas. E “camburão” da Vadiagem era o que mais se via pela cidade...
Fim de quinzena era um inferno para os Office - Boys. Perdiam-se horas de lazer na Secretaria da Fazenda. Minutos preciosos de ociosidade eram desperdiçados dentro dos Cartórios de Protesto. E, não bastasse isso, reunida, a boyada estourava pelo Viaduto do Chá e invadia a “Light”, para depois, seguir para a Companhia Telefônica Brasileira e para os escritórios que ficavam lá no prédio dos Diários Associados e prédios comerciais adjacentes. Um subir e descer escadas que não acabava mais. E foi num desses fins de quinzena que, andando pela Rua Sete de Abril, eu, em meio à boyada, me deparei com uma passeata inusitada.
O mulherio (cerca de 30 mulheres, ou mais) saiu da Praça da República e entrou na Sete de Abril. Formavam um grupo compacto  que caminhava em nossa direção. Era um absurdo conjunto de feministas gritando palavras de ordem contra a ditadura repressiva e pregando a libertação e os direitos da mulher. As mulheres do grupo caminhavam decididas - a líder, com um sutiã na mão, símbolo da libertação da mulher - e todas com a blusa aberta, mostrando e balançando a peitaria. Diante daquela visão, os pedestres ficaram paralisados e, claro, excitadíssimos! O transito ficou atravancado. E a boyada, sacana como o diabo gosta, começou a assoviar e a dizer “gracinhas”. O mulherio continuava a caminhada, enquanto uma a uma do grupo despia a blusa. A boyada enlouqueceu diante daquele presente de papai do céu: um montão de peitos dançando livres em plena luz do sol. E os boys que, naquele momento, eram zero por cento de consciência política e cem por cento de testosterona, começaram a gritar: “As calcinhas! Tirem as calcinhas, já”! E em seguida, em coro: ”Sutiã na mão, calcinha no chão”!...
A cavalaria saiu da Republica e entrou com tudo na Sete de Abril, tentado controlar a situação, empurrando todo o mundo contra as paredes e para dentro de lojas e prédios. Tomavam e quebravam as máquinas dos fotógrafos-jornalistas, e, quebravam a cabeça deles também. Os policiais da PM largaram as viaturas nas ruas vicinais e “enquadraram” o mulherio que, por sua vez, partiu para os palavrões, acusando a Cavalaria e a PM de ser machista e chauvinista, e, de “mastins raivosos a serviço dos usurpadores do poder”. Mais viaturas, desta vez os camburões do DEOPS fecharam todo o quarteirão. As libertárias recuaram, tentando voltar à República. Encurraladas, nada mais puderam fazer. Foram empurradas contra a parede.
boyada ria, ironizava, divertia-se vendo como os policiais não sabiam o que fazer com toda aquela peitaria livre e solta. Estava difícil controlar e imobilizar com as mãos aquele mulherio raivoso e agressivo. Usavam o cassetete para mantê-las reunidas. E agrupadas ficaram até a chegada da Polícia Feminina.
O mulherio foi levado pelas policiais de volta a Avenida Ipiranga, onde foram revistadas no pouco que vestiam. E a boyada estava lá, junto, para conferir... Afinal, nunca se vira tanta peitaria “dando sopa” nesta São Paulo de Deus! A boyada continuava gritando: ”Sutiã na mão, calcinha no chão”! Chegaram mais policiais que, junto com a cavalaria e os cassetetes dispersaram os boys e a multidão. Aqueles desmancha-prazeres!
E, do outro lado da avenida, na calçada da República, vimos chegar mais camburões para levar o mulherio. E safada, com a testosterona a mil, a boyada se divertia, dizendo, a cada viatura que saia: “Está saindo o caminhão do Leite Vigor”... “Sai agora o caminhão do Leite União”... “Lá se vai o caminhão do Leite Paulista”... “ Com tanto buraco nas ruas todo esse leite vai virar coalhada”! Risadas, gargalhadas... De repente, acontece mais um “estouro” da boyada! Era preciso ligar para a firma e avisar que a cidade estava um caos. A boyada então disparou, levantando a poeira do chão, atropelando as pessoas, em busca de um telefone público... O dia tinha-se transformado em uma aventura e tanto!
À noite os telejornais mostraram o Brasil “cor-de-rosa”. Na manhã seguinte os jornais publicaram mais uma receita culinária que nunca dava certo. E fotógrafos e jornalistas cuidaram de suas feridas... Mas a boyada, ilesa, teve assunto para muitos meses.


Por  Wilson Natale

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